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Estado de Coisas

Sábado, Novembro 07, 2009
A fome e o refrigerante
Foi hoje, no self service onde almocei. Uma mulher magra e com cara de fome pede uma refeição, a moça da mesa em frente à minha concorda em pagar. E lá foi ela, fazer o prato para almoçar.

Quando ela volta e entrega a comanda à moça pagante, algo parece estar errado. A moça franze as sobrancelhas, aponta para a comanda e parece pedir explicações. A moça faminta fala algo baixinho e volta para a mesa.

Na fila, já na hora de pagar, descubro o motivo da polêmica: a moça faminta pediu um refrigerante. Sim, um refrigerante para acompanhar o almoço. As pessoas comentam, indignadas, como ela é "folgada" e "abusada'. "Um refrigerante, que absurdo!"

Meus pais concordam com a tese e me explicam qual é a lógica: refrigerante é supérfluo e ela pode passar sem isso. Quando ela trabalhar e puder pagar o seu próprio almoço, que compre o refrigerante. Pergunto a eles sobre as pessoas que trabalham e nem assim podem se dar "ao luxo" de comprar refrigerante. "Que se conformem", respondem.

O pensamento de meu pais reflete o pensamento geral, a naturalização da pobreza e a aceitação passiva das desigualdades. E nesse sistema, o fato de uma pessoa não ter o que comer e sentir fome causa menos indignação do que o pedido de um refrigerante.
Terça-feira, Outubro 20, 2009
Eu e o Twitter
Sinceramente, sobra pouco tempo para o blog depois que fui abduzida pelo Twitter. Sinto a mesma empolgação (e vício) que sentia pelo Orkut em seu início, lá pelos idos de 2004.


Para quem não conhece (em que planeta você vive?), um pequeno guia aqui.


Por enquanto, o Twitter é uma rede social realmente convidativa. Gente interessante, celebridades descontroladas (ou não), blogueiros, pessoas que postam em nome de quem já se foi, poesia, humor, de tudo um pouco. Eu gosto.


Mensagens curtas, 140 caracteres que pedem capacidade de síntese. Há espaço para detalhes do cotidiano, sim, mas via de regra as postagens são informativas e (quase) impessoais.


Eu confesso que gosto mais das postagens com um toque de dia-a-dia. Assim conheço pessoas, me divirto, desabafo um pouco a solidão de Brasília. O Twitter é sem dúvida uma ótima companhia.


E o melhor: os chatos, aqueles que conseguem disfarçar sua chatice em outros veículos, se revelam rapidamente por lá. Nesse caso, tudo se resolve sem dramas: unfollow.
Quarta-feira, Outubro 07, 2009
O tempo e a saudade
Eu tinha acabado de terminar o mestrado e morava em Recife. A grana era pouca, mas eu me divertia. Muito. Tinha amigas queridas que, como eu, adoravam dançar e curtir a noite. Foi o início da minha adolescência tardia e eu tenho saudades dela.

Poucos anos depois, eu vim para Brasília e a adolescência continuou. Muita festa, muita farra. Mas eu gostava mesmo era do trabalho, que me desafiava e transformava. Conheci pessoas, aceitei grandes tarefas, viajei por todo o país. Tenho saudades desse trabalho.

Depois, um tanto desequilibrada pela vida em Brasília, eu voltei para Recife. O reencontro com a minha cidade foi amargo quanto ao trabalho ruim que me esperava por lá. Em compensação... eu me diverti como nunca, já numa fase "adulta" e com uma estabilidade financeira que eu desconhecia até então. Ter um companheiro apaixonado também era novidade. Exploramos a minha cidade, o meu estado, as praias do Nordeste. E haviam os jogos de futebol, muitos deles. E meus irmãos e o carinho com sotaque recifense. Saudade demais...

Agora, é Brasília novamente. Minha vida profissional voltou pro eixo, eu finalmente voltei a estudar, projeto antigo, minha vida pessoal passou por turbulências. Adoro o apartamento onde moro, estou bem mais caseira, presa a livros e textos durante boa parte do meu tempo. Quando isso passar, certamente sentirei saudade.

E assim eu vou, de saudade em saudade, cada uma a seu tempo. Cada fase com sua doçura, seu amargor. E a aceitação, que não é acomodação, de cada uma dessas etapas, faz olhar pra trás e sentir saudade. E faz seguir em frente, em busca de novas saudades.
Uma história interrompida
Quando nos conhecemos, nos encontrávamos sempre. Era a necessidade de conhecer um ao outro, de saber como o outro pensava, de desenhar aquela relação que nascia, e parecia nascer forte. A afinidade foi imediata: olhos nos olhos, palavras e experiências partilhadas. Ele me entendia, parecia decifrar tudo o que eu dizia e escrevia, com a precisão de um mago. E tinha sempre a resposta certa.

Nada era muito urgente, mas também nada era inerte. Uma relação viva e dinâmica. Eu sempre tinha a impressão de que precisava mais dele do que ele de mim, mas acabei assimilando essa dependência como algo natural. E afinal, ele estaria sempre lá, pronto para me receber com aquele sorriso contido.

Num momento, como um toque de mágica, o distanciamento. Uma viagem que eu fiz, depois foi a vez dele viajar. E-mails que nunca se encontravam: quando eu escrevia, ele não respondia. E quando ele me dava notícias, eu nunca conseguia responder a tempo.

Foi assim que nos afastamos, desse jeito silencioso e inexplicável. Encontros que não se concretizaram, e-mails não respondidos, perguntas sem respostas. Talvez eu devesse ter deixado mais claro o quanto precisava dele. E o quanto aprendi a admirá-lo nos nossos encontros.

Agora, me sinto perdida em meio a um redemoinho de idéias desencontradas como nós dois. Nunca tenho respostas para as minhas indagações e sequer consigo imaginar o que ele me responderia. Sinto-me só, rejeitada, abandonada. Às vezes até incapaz de continuar. E não quero outra pessoa no lugar dele, quero apenas que nós dois voltemos a ser o que fomos naqueles dias.

Sim, eu sinto falta dele. Revendo essa história, não sei precisar quando, como e por que nos afastamos. Sei que nunca dependeu de minha vontade. Quanto à vontade dele, até hoje não sei. Só acho que não poderei seguir sem ele. Afinal, ninguém escreve uma tese de doutorado sem orientador.

Volta aqui e volta logo, meu orientador de tese!
Que tal uma reunião?
Ai, eu tô de saco cheio de reunião! Saco cheio, a única expressão possível, embora imprecisa, para definir o que eu sinto. É o reino da hipocrisia, é o apogeu dos prolixos. Falar por falar, falar do que não sabe, falar o óbvio, falar besteira - quem se importa? Estamos em reunião.

Aliás, quem calcula pra mim o custo/benefício de reuniões? Horas gastas em blá blá blá versus resultados disso tudo. Número de pessoas versus encaminhamentos efetuados. Minha participação versus o tamanho do meu saco ao final.

Ou então, que existisse um manual para reuniões, publicado na forma de LEI, que regulamentasse o comportamento de pessoas em volta de uma mesa. Quem violasse as regras, seria punido com uma fita crepe de embalar afixada sobre a boca.

Algumas coisas não poderiam faltar, para tornar essa sessão de tortura mais suportável:

Perguntas para se fazer:
- Por que torrar a paciência das pessoas com essa reunião? - leia-se objetivo
- Isso é REALMENTE tema para uma reunião? - leia-se pauta
- Quem REALMENTE precisa participar da reunião? - leia-se participantes
- O que vamos discutir, o que se espera ter resolvido ao final? - leia-se produtos esperados
- Quem registra? - leia-se lerê

Regrinhas básicas:
- Respeite os ouvidos dos participantes, não fale por mais de 5 minutos.
- Só fale quando REALMENTE tiver algo a dizer.
- Não interrompa alguém que está usando os seus 5 minutos.
- Não use os seus 5 minutos para se exibir ou mostrar eloquência.
- Use do bom senso, da objetividade e da inteligência (se tiver).
- Reunião com mais de 10 pessoas não é mais reunião, é comício.
- Quer brigar? Vai brigar na rua, marque um horário na saída com o seu desafeto e se estapeiem à vontade.
- Quando tomar o cafezinho, não faça aquele barulhinho de sugar.
- Se quiser beber água, não ofereça "baixinho" para todo mundo, no meio da reunião.
- Não atenda a porra do celular. Principalmente, não abaixe a cabeça e coloque a mão em concha sobre o celular, como se estivesse sendo muito discreto.
- Não cochiche. Digo, comigo. Odeio cochichos de reunião.
- Não me cutuque durante a reunião. Nem fora dela, aliás.
- Não faça caras e bocas para expressar sua insatisfação ou qualquer outro sentimento. Guarde o caralho de sentimento para você e para o seu terapeuta.
- A propósito, não é demais lembrar que reunião não é terapia de grupo. Controle as emoções.
- Ah, e não bata no meu pé com o seu pé, por baixo da mesa. Seja intencionalmente ou não.

Temas proibidos:
- Sexo dos anjos
- O ovo ou a galinha
- Piadinhas infames

Agindo assim, todos serão felizes, os recursos serão otimizados e reuniões de meia hora serão suficientes para resolver o que as pessoas passam dias discutindo. E eu não terei outro post mal-humorado aqui.
Segunda-feira, Outubro 05, 2009
O inferno?
Eu me enganei com a pós-graduação este semestre. Pouco texto, trabalhos intermediários "fáceis", conteúdo mais pragmático. Quando as aulas realmente começaram, vi que estava muito, muito enganada.

Depois de um primeiro semestre repleto de desafios vencidos, menções máximas e momentos felizes, as coisas parecem querer desandar. Os textos se tornaram incompreensíveis de uma hora para a outra, e isso me faz impotente para tudo o mais.

Agora, ficou a angústia de ler, reler, ler mais uma vez e nada entender. De me sentir incapaz. E de pensar se fiz a coisa certa ao ingressar na área social, essa querida estranha. O medo me ronda, os textos me olham indiferentes, eu invento leituras complementares que me traduzam a obrigatória.

Pra completar, o orientador me abandonou. Dois encontros em que ele faltou, simplesmente esqueceu. e-mail não respondido. Sentimento de rejeição acadêmica que nunca senti. Vontade de sentar na calçada do Minhocão (apelido do prédio onde estudo) e chorar.

Se existe inferno astral acadêmico, creio estar passando por um.
Domingo, Outubro 04, 2009
Caixinhas
Eu achava que com o passar do tempo, conheceria mais e mais as pessoas. Que, em determinado ponto da vida, as pessoas se tornariam previsíveis, a ponto de não haver mais surpresas. Achei que a idade trazia o benefício de um cada vez mais próximo pleno conhecimento dos nossos iguais (em espécie).

Que nada! A cada dia tenho mais surpresas, as pessoas se mostram imprevisíveis e incalculáveis. Bom e ruim. Agrado e desagrado. Comportamentos inesperados, ausência total de padrão. Caos. E medo do que virá. Por que as pessoas, mesmo as que eu achei que conhecia, são uma caixinha de surpresas que às vezes eu nem queria abrir.
Quarta-feira, Setembro 30, 2009
O velho novo
Um amigo meu perguntou o que eu fiz de novo este ano. Segundo ele, eu precisava fazer alguma coisa nova, algo que eu nunca tivesse feito antes e que me preencheria. Exemplo? Dança de salão.

De fato, não fiz nada tão novo em 2009. Em compensação, fiz tantas coisas que me renovaram, me fizeram sentir desafiada e me trouxeram tantos medos e supresas, que nem sinto falta de novidades puras.

Eu sei, é cedo para uma retrospectiva de 2009, e não é o que pretendo fazer. O que quero dizer é que não é preciso fazer dança de salão ou curso de trapezista para fazer algo novo. A novidade está em vencer os pequenos e grandes desafios nossos de cada dia.

Estudar política social numa área de orientação marxista foi novo pra mim, oriunda da área de saúde e cheia de fórmulas estatísticas na cabeça. Deixar um relacionamento que me fazia mal, apesar da dor que me causou, foi novo e de extrema coragem, me revelou o meu amor próprio, muitas vezes não muito evidente. Ter tarefa para as 24 horas do dia foi algo muito novo, depois dos dois anos de inércia completa em Recife. Entender a adolescência do meu filho, ou tentar. Dizer 'não' quando as pessoas ultrapassam certos limites. Sonhar acordada, mas acordar. Almoçar no Restaurante Universitário da UnB. A cada dia, aprender a viver longe da cidade que eu amo, Recife. Deixar de ser míope. Usar mais vestidos. Comprar um perfume, produto que nunca usei.

Encarar a novidade e o desconhecido dos dias comuns exige um esforço enorme. É como dizia o poeta:

"O problema não é inventar. É ser inventado hora após hora e nunca ficar pronta nossa edição convincente." Carlos Drummond de Andrade
Segunda-feira, Setembro 28, 2009
Anonimato
Definitivamente, o anonimato virtual do meu blog se foi. Se é que algum dia existiu.

Eu tentei a duras penas preservar o anonimato por aqui e talvez tenha supervalorizado esse ponto. Por querer ficar à vontade para escrever de intimidades a sacanagens. Por querer ser mais eu, não estando à vista.

Aos poucos, mais e mais pessoas foram relacionando o blog à pessoa, por diferentes vias. E o blog continuou sendo o que era, retrato do que eu sou. Hoje, tom confessional. Amanhã, quem sabe. Mas agora sou eu aqui, nome, sobrenome e desabafos.
Recado para o moço que se acha
Cuidado, moço que se acha.
Moço que se acha imprescindível, irresistível, o pegador. Que trata a moça como fosse presa fácil ou troféu engraçado. Moço que acha que a partida está ganha e que ela não vai conseguir escapar dele, o garanhão.
Essa história se repete muitas e muitas vezes. Ele abusa, ela cansa e vai embora, ele vem chorar o perdão que talvez terá. Ou nem isso, às vezes ele vem só se certificar de que ela voltará correndo ao primeiro estalar de dedos dele, moço que se acha.
O que ele não sabe é que no fundo de toda aquela tristeza, há uma deusa. Ela é especial e se sabe especial. Sabe que poderá ser amada, adorada, desejada, venerada. Sabe que o mundo não começou nem termina nele. Sim, ela sabe.
E o moço que se acha se dá conta tarde demais que achou errado.
E que ela, mesmo que não se ache, se sabe. Mulher.
O fim do fim
Não posso te pedir para vir buscar suas coisas, pois nem tenho nada seu aqui. Aliás, só agora percebo que a ausência de objetos para essa "prestação de contas" habitual entre os amantes é emblemática da nossa ausência de vínculos.

Não quero relembrar tudo o que aconteceu, nem discutir o que poderia vir a ser. Estou farta de alimentar ilusões, prometi a mim mesma não mais aturar mentiras. O que está feito, está feito e o que virá não tem nada a ver com nós dois.

Não sei se você manda mensagens para me irritar, debochar de mim ou simplesmente para se divertir, em seu egoísmo doentio. Sei que elas mobilizam cada vez menos emoções, e até a irritação inicial que me levava a quase respondê-las passou.

Eu me arrependo muito de muitas coisas que eu fiz quando acreditava naquele quase nada entre nós que eu insistia em chamar de relacionamento. Eu me arrependo principalmente de não atender à minha intuição nos momentos em que ela gritou que algo estava errado.

Sinceramente, eu nem consigo definir ainda como me sinto. Por um lado, uma pessoa privilegiada, por ter recebido amparo, carinho e cuidado depois do baque. Por outro, uma pessoa ingênua e cega, que perdeu tempo insistindo em algo que só me fez mal.

E essa é a minha conclusão, a mais triste que se pode tirar de um relacionamento: você só me fez mal. Me fez mal inclusive quando me fazia acreditar que estava me fazendo bem, enquanto mentia, me humilhava e manipulava da pior forma possível.

Hoje em dia, já ciente de tudo o que aconteceu e capaz de te ver como você realmente é, sinto um misto de vazio e horror. E, já incapaz de mobilizar aquele ciúme desesperado que eu sentia quando você me traía, só desejo que você se ocupe de outra vítima e acabe de vez com as poucas e covardes tentativas de contato comigo.

E para não me sentir parte desse seu jogo doentio com as mulheres, espero que ela, a nova vítima, não demore muito a perceber. E que homens como você sejam cada vez mais raros e que, quando infelizmente aconteçam na vida de alguém, que causem o menor estrago possível.

Uma história do fim
De tudo que fez para que tudo desse certo, nada ficou.
O que sonhou um dia já é passado e o presente é uma retomada do que se perdeu.
Errou a mão nos sentimentos e achava que era feliz com as migalhas que tinha.
Jurava saber das coisas e fazia tudo com a certeza de quem não mede riscos.
Corajosa, sonhadora ou louca, apresentou ao mundo seu projeto de grande amor.
De tão delirante, nem percebeu quando tudo ia definhando.
De tudo que fez para que tudo desse certo, nada ficou.
Não ficou o amor, dilacerado pelos maus tratos.
Não ficou a dor, enfraquecida pelo tempo.
Não ficaram os bons momentos, sufocados pela agonia.
Nem mesmo a mágoa ficou, pois não conseguiu se acomodar naquele coração inquieto.

No outro dia, ao despertar, pensou, resignada: "sonhar é bom, mas acordar é ainda melhor."